Marcha das Mulheres Negras 2025: legado de resistência, memória e projeto de futuro

Avançar. Creio ser esta a palavra que norteia as mulheres negras desde o seu nascimento. Se continuarmos inertes, não conseguiremos nossos direitos. Todos os dias nos deparamos com obstáculos que precisam ser superados, seja no campo social, racial, político ou econômico. A nós, tudo é negado. Ter acesso à saúde, educação, moradia e emprego de qualidade torna-se uma barreira que as mulheres negras precisam transpor diariamente. Tornar nossas conquistas visíveis é essencial para inspirar as futuras gerações. Pois, em um contexto em que a violência, o feminicídio e o preconceito são recorrentes, celebrar conquistas é honrar as que vieram antes de nós.

Dessa forma, refletir sobre os nossos desafios é também exaltar nossas raízes. Sendo assim, nós, mulheres negras do Brasil e de fora dele, decidimos que marcharíamos. Em 18 de novembro de 2015, marchamos contra o racismo, a violência e pelo bem viver. Essa iniciativa reuniu cerca de 100 mil mulheres. O evento constituiu um marco histórico e, a partir de então, não paramos mais. A marcha desencadeou mobilizações em todo o país, fez surgir movimentos reivindicatórios e ampliou o alcance de políticas públicas mais eficazes na educação, na saúde, entre outras áreas.

Em 25 de novembro de 2025, dez anos depois, voltamos a marchar. Cerca de 300 mil mulheres marcharam por reparação e bem viver. Voltamos mais empoderadas, mais fortes, mais unidas, dispostas a tornar esse momento único, e assim o fizemos. Nossa força ecoou por meio da nossa religiosidade, dos nossos cantos e da nossa diversidade. É impossível participar da marcha e voltar sendo a mesma mulher. A energia invocada nos transformou, e retornamos exigindo um futuro digno e mais justo para todas nós.

As mulheres que estiveram na marcha perceberam a importância de ter orgulho da sua negritude e da necessidade de ocupar espaços de poder, de liderança comunitária e de fortalecer a luta por justiça social. Tornaram-se agentes essenciais de transformação.

Nosso grito fortaleceu o nosso lugar de fala. Cada mulher presente sentiu a força e o poder ancestral que emanaram da Marcha de 2025. Paramos Brasília para dizer que, mesmo diante de todas as tentativas de nos matar, nos calar e nos tornar invisíveis, continuaremos em marcha em nossos estados, municípios e em nossas casas. Não podemos, nem queremos parar.

Essa inesquecível experiência contribuiu para compreendermos melhor o nosso protagonismo, ao mesmo tempo em que proporcionou visibilidade às mulheres do passado e garantiu que as mulheres do presente existam e sejam reconhecidas, compartilhando nossas dores, alegrias, derrotas e vitórias. A marcha protagonizou as mulheres negras, inspirando ações em defesa da cidadania, da igualdade social e da paridade de gênero. Marchar significou expor, por meio da fala, das lembranças, dos silêncios e dos esquecimentos, nossos desejos, aspectos que talvez não fossem perceptíveis sem esse ato gigantesco.

O mundo nos deve. E, até que cada mulher negra tenha dignidade e acesso à saúde, educação e moradia, continuaremos em marcha!

Por Tânia Maria da Silva

Tânia Maria da Silva é Maria da Silva é Mestra em Ciência da Informação pela UFPB, doutoranda na mesma área e professora da rede particular de ensino. Mulher negra, ativista, Ekede do Ilê Axé Oju Ofá Dana Dana. Integrante da Rede de Mulheres de Terreiro da Paraíba, do Fórum da Diversidade Religiosa da Paraíba e da Abayomi – Coletiva de Mulheres Negras da Paraíba.

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