Ao celebrar os 10 anos da ABAYOMI – Coletiva de Mulheres Negras na Paraíba, eu penso menos em uma linha do tempo e mais nos fios que nos trouxeram até aqui. Fios tecidos entre mulheres negras que decidiram não aceitar o silêncio, a violência e o apagamento como destino. Fios que atravessam territórios, afetos, lutas, ancestralidades e sonhos coletivos.
A ABAYOMI PB nasceu da urgência. Urgência de enfrentar o racismo que estrutura a vida das mulheres negras na Paraíba. Urgência de construir espaços de acolhimento, formação política e organização coletiva. Urgência de dizer que nossas vidas importam e que não aceitaríamos continuar sobrevivendo à margem.
Durante essa década, aprendemos que construir uma coletiva de mulheres negras é também construir possibilidades de existência. E isso não acontece sem enfrentamento. Foram anos denunciando violências, disputando narrativas, fortalecendo territórios e criando caminhos de resistência em um estado onde mulheres negras seguem sendo as mais atingidas pela pobreza, pela violência doméstica, pelo racismo institucional e pela ausência de políticas públicas.
Partindo do que nos ensinou Lélia Gonzalez, “o lixo vai falar, e numa boa”, talvez a história da ABAYOMI PB também seja sobre isso: sobre mulheres negras que se recusaram a permanecer silenciadas e decidiram transformar dor em organização política, memória em denúncia e existência em luta coletiva.
Mas a ABAYOMI nunca foi apenas denúncia. Ela também é construção.
Construção de redes de apoio entre mulheres negras. Construção de memória. Construção de formação política. Construção de estratégias para enfrentar a violência e disputar o futuro. Ao longo desses anos, ocupamos escolas, quilombos, terreiros, periferias, universidades e espaços institucionais. Construímos debates sobre racismo, gênero, reparação e bem viver. Produzimos comunicação negra, fortalecemos narrativas e ajudamos a formar outras mulheres negras para que também ocupassem espaços de fala, decisão e incidência política.
Quando penso na ABAYOMI PB, penso muito nos territórios que nos acolheram e que também ajudaram a moldar nossa atuação. Penso no Terreiro de Mãe Mocinha de Oxum, nos quilombos, nas mulheres das periferias, nas juventudes negras que encontramos ao longo do caminho. Penso nas tantas mulheres que chegaram até nós atravessadas pela violência, mas que também nos ensinaram sobre força, coletividade e continuidade.
A caminhada não foi simples. Construir uma organização de mulheres negras no Nordeste significa lidar diariamente com a escassez de recursos, a sobrecarga militante e a necessidade constante de reafirmar a legitimidade das nossas pautas. Muitas vezes, o trabalho das mulheres negras é invisibilizado até mesmo dentro dos espaços políticos e institucionais. Ainda assim, seguimos.
Seguimos porque sabemos que o que fazemos é maior do que nós individualmente. A ABAYOMI PB faz parte de uma tradição histórica de mulheres negras que transformaram cuidado em estratégia política e organização coletiva em instrumento de sobrevivência e transformação social.
Nesses 10 anos, também entendemos que falar de enfrentamento ao racismo é falar sobre comunicação. Por isso, investimos na produção de conteúdos, no fortalecimento das nossas redes e na disputa de narrativas. Porque sabemos que o racismo também opera no campo simbólico, apagando histórias, silenciando vozes e naturalizando desigualdades.
Celebrar esses 10 anos não significa romantizar a resistência. Não queremos ser reconhecidas pela capacidade de suportar a dor. Queremos viver plenamente. Queremos bem viver. Queremos políticas públicas que garantam dignidade às mulheres negras. Queremos reparação histórica. Queremos que nossas meninas possam crescer sem que a violência e o racismo definam seus destinos.
Se chegamos até aqui, foi porque muitas mulheres vieram antes de nós e porque muitas seguem caminhando ao nosso lado. A ABAYOMI PB é resultado dessa construção coletiva. É projeto de futuro.
E é por isso que seguimos.
Seguimos em marcha.
Seguimos tecendo redes.
Seguimos transformando lutas em possibilidade de vida.
Por Thais Vital
ABAYOMI PB