O que significa falar de mulheres negras e política em 2026?

Estamos na reta final da campanha política. A menos de 10 dias das eleições, eu sinto muita esperança em relação à nossa Presidência e também às candidatas que escolhi para deputadas estadual e federal. A agenda das mulheres negras nunca se separa da política, mas, desta vez, vejo com olhos mais atentos as nossas posições nesse cenário.

Muito se escuta sobre as mulheres negras como eleitorado estratégico. E, de fato, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), divulgados para as eleições deste ano, mulheres pardas representam 51,76% das eleitoras e mulheres pretas, 10,96%. Somadas, as mulheres negras correspondem a 62,72% do eleitorado feminino brasileiro. (Fonte: Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Estatísticas do Eleitorado – Eleições 2026; dados repercutidos pela Agência Brasil.)

Mas, se em vez de perguntar apenas em quem as mulheres negras vão votar, começássemos a perguntar que país nós queremos construir e quem estará ocupando os espaços de decisão para construí-lo? Será que a representatividade nos espaços de poder e de tomada de decisão é, de fato, quantitativamente justa?

Estamos sempre atentas a quem busca nos representar, mas nem sempre são mulheres negras que ocupam esses espaços. Existe uma diferença entre permitir que alguém esteja na disputa e criar condições reais para que essa pessoa possa efetivamente disputar o poder. O Manifesto Político das Mulheres Negras do Brasil: Pacto do Bem Viver e as Eleições 2026 chama a atenção justamente para a desigualdade de recursos e para o rebaixamento das candidaturas negras, especialmente femininas, dentro da política institucional.

Sou estrategista e planner de marketing político e, este ano, tive o prazer de mentorar uma candidata negra. Pude ver de perto a batalha na corrida eleitoral. Atualmente, as candidaturas pretas ou pardas representam 49,64% do total (segundo a Justiça Eleitoral), o que já é um número expressivo, mas não significa necessariamente igualdade de condições.

Em 2026, os partidos devem destinar no mínimo 30% dos recursos do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) e do Fundo Partidário às candidaturas de pessoas negras. Mas a realidade mostra um abismo entre ter direito a recursos e ter recursos suficientes para construir uma campanha competitiva.

O próprio modelo de distribuição já produz diferenças entre os partidos: 35% são distribuídos conforme os votos obtidos pelo partido na última eleição para a Câmara, 48% em relação ao número de deputados federais eleitos e 15% conforme a representação no Senado. Como, atualmente, os partidos que tendem a ter políticos negros ou que lutam por nossas causas não são maioria, essa distribuição de verba já não abrange de forma igualitária as pessoas negras nas próximas candidaturas, e esse ciclo se mantém. Além disso, duas candidaturas negras podem estar submetidas à mesma regra de 30%, mas não necessariamente terão o mesmo volume absoluto de recursos, estrutura, equipe ou capacidade de comunicação.

E existe outra questão: o percentual destinado ao conjunto das candidaturas negras não significa que cada candidata ou candidato negro receberá 30% do que seu partido recebeu. A distribuição interna entre as candidaturas segue critérios definidos pelas próprias agremiações, respeitadas as cotas legais, mas, ainda assim, deixando margem para que a estrutura não seja plenamente justa e para que nem todas as candidaturas negras recebam o mesmo valor.

Não existe democracia plena quando determinados grupos são chamados a votar em projetos que nunca tiveram condições reais de disputar.

E a gente sabe que política se faz com comunicação, posicionamento e diálogo. Sem investir nisso, não há acesso à informação, ao conhecimento das causas, dos direitos e dos deveres. Não basta colocar uma mulher negra na urna. É preciso garantir que as condições sejam dadas para que ela possa chegar até lá, disputar, ser ouvida e mobilizar pessoas de forma justa.

Então, a nossa pergunta inicial não é apenas quantas candidaturas negras existem. É quanto se investe nelas, qual estrutura lhes é oferecida e quanto espaço elas têm para construir política.

Ter mulheres negras candidatas importa porque democracia também é uma disputa sobre quem pode ocupar o lugar de sujeito político. A presença de mulheres negras nas eleições não deve ser compreendida apenas como uma questão de representatividade, mas como uma questão de democratização do poder. Porque não basta sermos chamadas a participar da política: precisamos ter condições materiais, partidárias e políticas para disputar, decidir e transformar.

Maria Mariana Figueiredo

Publicitária/ ativista ABAYOMI-PB

 

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