Por Thais Vital e Pery Camilo
As mulheres negras da Paraíba estão em marcha. Há dez anos elas já denunciavam as violências, o racismo e exigiam o Bem Viver na primeira Marcha Nacional das Mulheres, em Brasília/DF.
Lá, elas se somaram as mais de 100 mil mulheres negras do Brasil – um processo histórico que impactou e definiu os rumos da organização política das mulheres negras no Brasil e na América Latina.
Decidiram marchar de chita, um dos tecidos mais conhecidos por todo o país, representativo da Paraíba e da região Nordeste do Brasil. Voltaram para casa com a mala cheia de criatividade e uma imaginação política tão radical que foi capaz de fortalecer o Movimento de Mulheres Negras no Estado, potencializar a presença das negras na política e, dentre tantas ações, criar organizações de mulheres negras, como é o caso da nossa ABAYOMI – Coletiva de Mulheres Negras na Paraíba.

Agora, dez anos depois, elas seguem em marcha, com muitas outras, sejam jovens, mais velhas, gente que nunca marchou e com as que já sabem como marchar. Estão organizadas em comitês intermunicipais que conectam grandes polos da Paraíba a cidades adjacentes, como uma estratégia de articulação para ampliar a mobilização da Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver.
Atualmente, existem três Comitês Intermunicipais: Região de Campina Grande, Região de João Pessoa e Comitê Quilombolas e Brejo Paraibano. Formado por mulheres negras de todas as idades, quilombolas, camponesas, universitárias, trabalhadoras e lideranças comunitárias que, juntas, constroem um movimento diverso e plural.
Os Comitês Intermunicipais são responsáveis por idealizar e executar ações que mobilizam e organizam as mulheres negras em seus próprios territórios, interiorizando a marcha na Paraíba num processo importante de fortalecimento das mulheres negras.
As ações de preparação para a Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver tem afirmado o protagonismo político dos movimentos de mulheres negras, com encontros presenciais periódicos, formações nas comunidades, pré-marchas e campanhas de divulgação da Marcha nas redes sociais.
E não é atoa que nosso slogan é: “Paraiba teimosando por Reparação e Bem Viver!”. Uma frase que surgiu da fala de Elza Quilombola, uma mulher negra do Quilombo de Caiana, localizado em Alagoa Grande, no Brejo paraibano. Elza Quilombola disse que seguia viva porque era “teimoseira”, e que sua teimosia a fazia reivindicar com luta os espaços que ela hoje ocupava.
E é “teimosando” que as mulheres negras paraibanas vão se unir a mais de 1 milhão de mulheres negras e marchar no dia 25 de novembro, em Brasília.
Teimosando por uma reparação histórica que reconheça as violências do passado, desde o processo de sequestro do nosso povo em África para serem escravizados no Brasil, até os dias de hoje.
Teimosando na luta pelos nossos direitos; para seguir “na construção de caminhos concretos para garantir a existência plena da população negra”, como diz Jurema Werneck.
As mulheres negras da Paraíba vão marchar pelo Bem Viver que merecemos. Pois não há democracia possível sem a presença das mulheres negras, e não aceitaremos um futuro onde permaneçamos invisibilizadas, em um país que nos exclui e não nos reconhece como sujeitas políticas de direitos.
Ecoaremos nossas vozes e firmaremos nossos passos em marcha pelo direito ao acesso à educação, saúde, cultura, autonomia, liberdade, e uma sociedade com justiça social.
Vamos marchar para que nossas relações afetivas e nossa espiritualidade sejam respeitadas. Para que tenhamos direito ao trabalho dignamente remunerado. Para que as mães negras possam dormir sossegadas sabendo que seus filhos voltarão seguros para casa.
Ecoaremos nossas vozes e firmaremos nossos passos em marcha pelo direito de ir e vir sem sermos “confundidas” como suspeitas de crimes. Pelo direito ao lazer, ao prazer e ao tempo livre.
Basta de violências, racismo, sexismo, lesbofobia, e desigualdades. Vamos marchar e dizer que queremos viver e não apenas sobreviver. Vamos ocupar Brasília com nossos corpos, nossas vozes e nossas bandeiras.