Minha irmã virou manchete: racismo, mídia e a dor das mulheres negras periféricas

“Mataram a Marcella, o corpo dela foi achado num matagal!”.
Foi assim que eu soube, na manhã do dia 23 de novembro de 2021, que minha irmã caçula estava morta. Num áudio desesperado da minha tia, compartilhado no grupo da família.

Horas se passaram e as informações estavam desencontradas, não sabia o que estava acontecendo. Eu estava na Paraíba, longe de São Paulo, onde tudo aconteceu. Mas não demorou até eu começar a receber informações pela imprensa. Os jornais televisivos policialescos chegaram ao local antes mesmo da minha família. Helicóptero, chamada ao vivo, imagens do corpo coberto com uma manta metálica estendido no chão. Para eles, minha irmã não tinha nome. Ela foi reduzida a uma jovem de 17 anos encontrada morta, num terreno baldio. Ela estava morta, e seguiu morrendo nas palavras frias e no sensacionalismo barato dos holofotes midiáticos.

A imprensa não ouviu a minha família, não buscou saber quem minha irmã era, não respeitou a nossa dor. No outro dia, no cemitério, eles estavam lá, como abutres, querendo uma chamada para o televisivo das 12h. Em pleno velório atendi o telefone e era uma produtora de TV querendo saber se poderia me colocar ao vivo com o apresentador. Desliguei.

A violência contra mulheres negras e periféricas não termina no ato da agressão. Em muitos casos, ela continua e se aprofunda na forma como a mídia hegemônica escolhe contar essas histórias. O jornalismo brasileiro, historicamente atravessado por estruturas racistas, classistas e patriarcais, constrói narrativas que revitimizam mulheres negras vítimas de violência doméstica e de feminicídio, ao mesmo tempo em que reserva um tratamento mais humanizado e sensível quando as vítimas são mulheres brancas e moradoras de bairros nobres.

Escrevo sobre isso não apenas como jornalista, mas também como alguém que foi atravessada por essa violência. Há quase cinco anos, quando perdi minha irmã Marcella, uma adolescente negra de apenas 17 anos, encontrada morta em um contexto marcado pela brutalidade e pela desigualdade social que atingem cotidianamente meninas e mulheres periféricas, eu conheci, além da dor irreparável da perda, a violência da espetacularização da morte pela mídia.

Vi manchetes explorarem o sofrimento da minha família, imagens circularem sem qualquer cuidado ético e narrativas serem construídas sem sensibilidade, como se a vida da minha irmã pudesse ser resumida à crueldade que a tirou de nós. Pouco se falou sobre quem ela era, sobre seus sonhos, sua juventude interrompida ou sobre o impacto devastador daquela perda. A lógica do sensacionalismo transformou nossa dor em um produto de consumo.

Nas periferias, a cobertura midiática frequentemente transforma a dor em espetáculo. O foco das notícias costuma recair sobre o local do crime, a “periculosidade” da comunidade, a suposta relação da vítima com situações de vulnerabilidade ou até sobre aspectos de sua vida pessoal que insinuam culpa ou responsabilidade pela violência sofrida. Expressões como “mulher foi morta após discussão”, “crime passional” ou “ela mantinha um relacionamento conturbado” ainda aparecem em manchetes que suavizam a responsabilidade do agressor e deslocam a atenção da violência estrutural contra as vítimas.

E quando a vítima é uma mulher negra e periférica, então… sua trajetória raramente é contada com profundidade. Pouco se fala de seus planos de vida, de sua família ou da rede de afetos que construiu. Muitas vezes, ela aparece apenas como mais um número da violência urbana. Seu nome desaparece rapidamente do noticiário, substituído pela lógica da banalização da morte nas periferias.

Já quando o caso envolve mulheres brancas, especialmente de classe média ou alta, o enquadramento muda. A imprensa mobiliza especialistas, produz longas reportagens, acompanha investigações, entrevista familiares e reconstrói a vida da vítima de maneira humanizada. As manchetes destacam a brutalidade do crime, reforçam a indignação social e apresentam aquela mulher como alguém cuja vida foi interrompida injustamente, o que, evidentemente, deveria acontecer em TODOS os casos. Essa diferença de tratamento não é casual. Ela revela quais vidas a mídia considera dignas de luto, empatia e mobilização pública, e isso tem um nome: racismo estrutural.

A psicóloga Cida Bento falou sobre isso na sua obra “O pacto da branquitude”, analisando como os espaços de poder, incluindo as redações e empresas de comunicação, operam em “pactos”, na escolha das pautas, na linguagem utilizada e na forma como os corpos negros são historicamente associados à violência, à marginalidade e à descartabilidade.

Outro elemento grave é a insistência em expor imagens sensacionalistas de mulheres negras assassinadas ou agredidas. Fotos dos corpos, cenas de desespero e entrevistas invasivas com familiares são mais comuns em coberturas feitas nas periferias. Em “E eu não sou uma mulher?” (obra inspirada em Sojourner Truth), bell hooks expõe essa realidade das mulheres negras e pobres, cujas existências e dores sequer eram reconhecidas. Trata-se de uma prática que desumaniza a vítima e transforma a tragédia em consumo midiático. Mas quando a violência atinge mulheres brancas de bairros nobres, a imprensa, enfim, cumpre o seu papel ético, adota cautela e preserva a intimidade da vítima e da família.

A mídia hegemônica também contribui para invisibilizar o debate sobre raça e gênero nos casos de feminicídio. Embora mulheres negras sejam maioria entre as vítimas no Brasil, 62,6% em 2025, segundo levantamento “Retrato dos Feminicídios no Brasil”, publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), muitas reportagens evitam nomear o racismo como parte da engrenagem que produz essas mortes. Sem essa análise, a violência aparece como casos isolados, e não como expressão de desigualdades históricas que atravessam território, cor e classe social.

Disputar narrativas é também disputar humanidade. Pois enquanto a mídia continuar tratando corpos negros como estatística e corpos brancos como tragédia nacional, seguirá reproduzindo as desigualdades que deveria denunciar. Romper com a lógica da revitimização exige um jornalismo comprometido com direitos humanos, com perspectiva racial e de gênero, capaz de compreender que mulheres negras periféricas não são personagens secundárias da violência brasileira. São vidas inteiras, histórias interrompidas e sujeitos políticos que merecem memória, justiça e dignidade.

Foi desse lugar de ferida aberta que transformei o meu luto em luta. Hoje, como ativista do movimento feminista negro na Paraíba, ativista da ABAYOMI – Coletiva de Mulheres Negras na Paraíba, compreendo ainda mais profundamente como raça, território e classe social definem quais mulheres serão vistas pela sociedade como dignas de empatia e justiça. E compreendo também o papel central que a mídia exerce na reprodução dessas desigualdades.

Transformar minha dor em militância foi uma forma de dizer que a minha irmã, Marcella do Carmo Silva, não será reduzida a uma manchete. Sua vida deixou saudade. Sua memória importa, assim como a memória de tantas outras mulheres negras também.

Marcella, presente!

Por Pery Camilo

jornalista, ativista da ABAYOMI PB

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